Aumenta número de mulheres negras no Ensino Superior em MS


Letícia Veiga de Souza recebeu o diploma ao lado da filha
“A presença da mulher negra da Universidade significa mudança nos tempos, nós estamos conquistando nosso espaço e conseguindo crescer profissionalmente", enfatiza Letícia Veiga de Souza, de 24 anos, formada em Turismo pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). Atualmente, dos 1.384 estudantes negros cotistas da instituição, 746 são mulheres, ou seja, mais da metade. 
Letícia, que é do Rio de Janeiro, optou por estudar e se formar na unidade da UEMS em Dourados. Ela relata que já sofreu preconceito por conta de sua cor de pele e isso mudou sua forma de pensar. “Minha mãe sempre dizia que existia racismo, mas foi depois de passar por uma experiência que percebi que as pessoas são racistas sim, a nossa cor influencia no comportamento do outro. Senti na pele e esse fato foi decisivo para minha formação como pessoa, mulher e negra”, diz.

Nesse sentido, a turismóloga egressa da UEMS venceu esta etapa da vida com muitas dificuldades, por estar longe de sua família e engravidar durante o curso, mas teve ajuda de amigos e professores da Universidade. No dia da colação ela levou a filha - de quase dois anos – para, ao seu lado, receber o diploma de conclusão da graduação.
“Já adianto que as palavras vão limitar o que realmente foi, mas considero minha colação de grau, momento divino, mágico, espetacular. Quando eu decidi entrar com minha filha no colo, eu quis passar uma mensagem para os presentes, não apenas como foi minha história, mas também, do quanto somos capazes e não sabemos.   A formatura, os aplausos, os gritos, a euforia de todos os presentes, foi a maior recompensa que eu poderia ganhar. O choro foi de alívio, satisfação, prazer... foi de superação”, relata emocionada. 
Desafios
Em muitos outros casos, a permanência na Universidade coloca as acadêmicas à prova de uma série de desafios. São diárias as lutas enfrentadas por elas no acesso, permanência e, principalmente, no enfrentamento à discriminação que, infelizmente, ainda persiste no ambiente universitário.
É o caso de Jacira Figueiredo, 35, aluna do 2º ano do curso de Pedagogia e bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica - Ações Afirmativas (PIBIC-AAF ). “Enquanto negra, mulher e mãe, estar na UEMS hoje é uma conquista pessoal. Abri mão de meu emprego para ingressar no curso que escolhi, numa realidade em que a universidade é uma realidade distante para muitos”, diz Jacira.
O preconceito existe, de acordo com a acadêmica da UEMS. “Nunca fui alvo de ataques, mas colegas já reclamaram comigo sobre isso. Há pessoas que dizem que cotistas “não são capazes” de prosseguir no Ensino Superior. A política inclusiva da UEMS trouxe para mim esta possibilidade para uma formação profissional e intelectual e  uma formação cultural para minha vida”, relata Jacira.
                                                    Pesquisadora Maria José Alves de Jesus Cordeiro, Maju.
Embora a democratização do acesso ao ensino superior tenha sido estimulada por uma série de políticas públicas, ainda há muita resistência e preconceito direcionados aos acadêmicos negros, principalmente às mulheres negras. É o que aponta a pesquisadora Maria José Alves de Jesus Cordeiro, Maju, docente da UEMS e líder do Centro de Estudos, Pesquisa e Extensão em Educação, Gênero, Raça e Etnia (Cepegre/UEMS) que estuda assuntos referentes ao acesso e à permanência destes estudantes na Universidade.
Como uma das primeiras docentes negras e tendo atuado no processo de implantação da UEMS, Maju explica no cenário universitário da inclusão, ainda são poucos os docentes que tratam da temática das minorias."Muitos professores, ainda que integrem grupos minoritários, sejam negros, indígenas ou lgbt, se auto-invisibilizam, não assumindo para si tal condição. Essa postura acaba se refletindo entre os alunos, contribuindo para a discriminação".
Maju ressalta que embora haja dificuldades, inclusive, na organização de eventos voltados para esse público universitário, "o número crescente de mulheres negras na UEMS é uma esperança para uma conscientização institucional de que esse público deve ter amparo na Universidade. "Algumas acadêmicas com posturas mais politizadas têm buscado promover o esclarecimento e o combate ao preconceito nas salas de aula. Nesse sentido, devemos apoiá-las nesse árduo caminho", finaliza a coordenadora.
Atualmente, as mulheres negras representam 25,5% da população do Brasil, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Rubens Urue e Eduarda Rosa

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